Por Emerson Ciociorowski
Há muitos anos, um amigo meu, médico, sempre me chamava a atenção para a sua constatação que resumia num ponto interessante: “a grande maioria das pessoas não estavam despertas para a vida e se comportavam como sonâmbulos”, dizia ele.
Quando passei a trabalhar com pessoas, sempre vinha a frase dele na minha cabeça e uma outra que muita gente conhece: “desligue o piloto automático”. Esta última, acabou batizando uma série de workshops que realizei durante muito tempo em empresas, desde pequenas fábricas até indústrias multinacionais.
Sempre que posso, no exercício do meu trabalho, provoco as pessoas a não acreditarem em mim, mas buscar as suas verdades e saírem do conforto do sonambulismo.
Trabalhando com o tema do estresse, escuto quase que diariamente sobre a tentativa inútil de “controlar” o estresse, quando na verdade o que podemos fazer é gerenciá-lo.
Para coroar esta minha perspectiva, professores de Harvard trazem uma nova pesquisa que identifica o que chamam de “microestressores”. Afinal, se alguns insistem que é possível controlar o estresse e suspender seus efeitos no corpo, o que dirão dos microestressores que, segundo a pesquisa, passam desapercebidos, porém com efeitos devastadores?
No total, entrevistaram 300 pessoas de 30 empresas globais, divididas igualmente entre mulheres e homens, de 2019 a 2021. Muitos desses profissionais de alto desempenho eram verdadeiros barris de pólvora de estresse e, para surpresa dos pesquisadores, a maioria deles não se davam conta do seu nível de estresse. Mas aos poucos, geralmente no meio da entrevista, eles começaram a reconhecer que estavam lutando muito para manter e equilibrar o trabalho e a vida pessoal. Para alguns, as entrevistas foram um ponto de inflexão, um momento em que reconheceram como as coisas estavam ruins para eles. Alguns até começaram a chorar, lamentando que não conseguiam ver um caminho de saída.
Os pesquisadores estavam familiarizados com os tipos de estresse que os funcionários de alto desempenho geralmente suportam. Isso, porém, era completamente diferente. O que ouviam era estresse, sim, mas de uma forma que nem os entrevistados e os pesquisadores tinham uma linguagem conhecida. Enquanto as pessoas até se atrapalhavam para descrever suas vivências, alguns padrões acabaram surgindo. Por exemplo: as pessoas nunca tiveram a sensação de que algo grande os levavam a se sentirem sobrecarregados. Em vez disso, foi o acúmulo implacável de pequenos eventos despercebidos – em momentos passageiros – que afetavam drasticamente seu bem-estar.
Os autores chamaram essas pequenas pressões de “microestresses”. Mas ser “micro” não significa que eles não cobram um preço enorme a longo prazo, como foi de fato constatado.
O estresse que estamos acostumados em geral é grande, visível e óbvio, onde muitas vezes podemos facilmente identificar seus fatores ou suas causas como por exemplo, um chefe inconstante, cujo humor diário contamina todo o escritório. Ou ainda, quando sobrevivemos a várias rodadas de demissões que eliminaram cargos que passaram ao nosso lado. Ou mesmo gerenciando uma mudança de casa, uma doença na família ou tendo que dar suporte à pais dependentes, ou suportando uma maratona de reuniões.
Já o microestresse é menos óbvio. É causado por vários momentos difíceis que registramos como apenas mais um obstáculo na nossa jornada, isto quando temos a capacidade de percebê-los. Os microestresses vêm até nós tão rapidamente, e estamos tão condicionados a apenas trabalhar com eles, que mal reconhecemos que algo aconteceu. Tendemos a considerá-los fugazes, simples de lidar ou pequenos demais para nos machucar por mais de um segundo. E mesmo quando registramos o microestresse, não pensamos necessariamente em seu impacto em nossas vidas.
O que torna ainda mais difícil reconhecer é o fato de que o microestresse geralmente é desencadeado pelas pessoas muito próximas que estão a nossa volta.
Por exemplo, pode ser causado por sentir a necessidade de proteger um funcionário da sua equipe que não está sendo reconhecido por seu trabalho. Ou por ter que se dedicar por mais tempo para terminar um projeto conjunto quando alguns colegas de equipe falham em sua parte.
São situações em que os microestresses, como o próprio nome indica, são pequenos – muitas vezes invisíveis para nós. No entanto, às vezes, podem parecer fatores positivos ou fáceis de justificar que, naquele momento, parecem inofensivos.
Uma fechada no trânsito, uma resposta enviesada de uma atendente, e por aí vai.
Mas é exatamente isso que é tão pernicioso no microestresse. Os estressores individuais parecem administráveis no momento, mas eles se acumulam e podem criar efeitos cascata de consequências secundárias e às vezes terciárias, que podem durar horas ou dias – e além disso, podem desencadear microestresse até em outras pessoas que estão ao seu redor.
O microestresse também envolve nossas experiências emocionais que não é fácil de lidar a todo momento. E uma das causas, é que a fonte do microestresse raramente é um antagonista clássico, como um cliente exigente ou um líder desajustado. Em vez disso, vem das pessoas de quem somos mais próximos ou seja nossos amigos, familiares e colegas de trabalho.
Você provavelmente enfrenta dezenas por dia – e provavelmente aceita que esse modo de vida agitado seja “normal” e surgem em doses homeopáticas.
Vivemos em um mundo hiper conectado, 24 horas por dia, 7 dias por semana e nosso corpo não foi preparado para isto. Além do mais, esta mudança aconteceu em um espaço de tempo muito curto.
O microestresse é pernicioso porque faz parte de nossa vida cotidiana em um volume, intensidade e ritmo maiores do que jamais experimentamos antes, e isso, só aumenta com a tecnologia e a conectividade onipresente. E nossos corpos e mentes não sabem bem o que fazer com isso e com nossas telinhas.
Como você sabe se está enfrentando microestresse em vez de apenas ter um trabalho exigente? Se você é como os profissionais de alto desempenho, aqui estão algumas pistas:
- Você se vê quase constantemente reagindo, em vez de ser proativo.
- Você está sempre respondendo a solicitações, tentando descobrir quais bolas pode deixar cair entre as várias demandas do dia sem ter tempo de processar o que acabou de discutir.
- Você reage de forma exagerada a pequenos contratempos ou ataca outras pessoas em sua vida profissional e pessoal com frequência.
- Você abandonou lentamente atividades e amizades que antes eram uma parte vibrante de sua vida e identidade.
- Seu dia começa a parecer que está saindo dos trilhos assim que você abre sua caixa de entrada de e-mail.
Podemos não estar conscientes dos microestressores, mas, como o velho estresse, que muitos ainda não conhecem ou até negam, eles também podem aumentar nossa pressão sanguínea e nossa frequência cardíaca, ou desencadear alterações hormonais ou metabólicas. “Embora os microestressores danifiquem nossos corpos, nossos cérebros não os registram totalmente como uma ameaça”, afirma o Dr.Joel Salinas, neurologista comportamental e pesquisador da Escola de Medicina Grossman da Universidade de Nova York, em entrevista dada à Harvard Business Review.
“Embora os microestressores danifiquem nossos corpos, nossos cérebros não os registram totalmente como uma ameaça”, explica o Dr. Salinas. “Portanto, nossos cérebros não estão acionando o mesmo tipo de mecanismos protetores de ordem superior que podem ocorrer diante de um estresse mais óbvio”.
Você pode ser mais rápido em descartar o microestresse do que as formas macro de estresse, porque acha que pode administrá-lo no momento. O problema é que seu cérebro não está controlando isso, porque sua resposta normal ao estresse não disparou. Então microestresses se acumulam, um em cima do outro.
Segundo a neurocientista Lisa Feldman Barrett, professora de psicologia na Northeastern University, um estudo descobriu que se você for exposto ao estresse social dentro de duas horas após uma refeição, seu corpo metaboliza a comida de uma forma que adiciona 104 calorias à refeição. “Se isso acontecer diariamente, são 11 quilos ganhos por ano!
Então, o que podemos fazer sobre o ataque do microestresse em nossas vidas no dia a dia? Segundo o grupo de pesquisadores de Harvard os conselhos convencionais para melhorar nosso bem-estar tendem a se concentrar em se minimizar dos efeitos do estresse (macro ou micro), por meio de práticas somo a atenção plena, meditação ou mesmo a gratidão. Sim, essas abordagens ajudam a refrescar sua mente. Mas, de certa forma, eles também prejudicam, pois aumentam sua capacidade de suportar mais microestresse.
Portanto, é fundamental você dar um mergulho dentro de si e perceber suas atitudes e reações, além claro de identificar o que está lhe estressando, ou seja, os fatores desencadeadores do estresse e do microestresse.
Sugiro que faça uma lista da sua rotina por uma semana, anotando o que lhe foi desconfortável, o que gerou raiva e em que situações você foi reativo.
Ninguém está imune ao microestresse, no entanto, é possível estruturar sua vida de maneira que não apenas reduza o seu microestresse, mas também melhore seu bem-estar geral e seus relacionamentos com amigos. familiares e colegas.
Você pode promover um conjunto diversificado de conexões autênticas que adicionam outra dimensão à sua vida, o que, por sua vez, ajuda a mitigar os efeitos do microestresse.
Outra dica que dou é abrir espaço para a espiritualidade, o que não significa religião necessariamente, mas abrir-se para uma outra dimensão que transcende à você mesmo. E como sempre coloco, dê uma pausa, faça um Stressbreak ®, através de ações de lhe propiciem alegria, e prazer no seu dia a dia. Desligue seu piloto automático!
Seu corpo e mente irá agradecer e elevará seu nível de qualidade de vida.
Para saber mais: pesquise os doutores Rob Cross e Karen Dillon que são os autores de
The Microstress Effect, lançado muito recentemente.